Funding
National Institute for Health and Care Research-NIHR, Wellcome Trust, CNPq. Resumo: Introdução: O racismo estrutural e institucional no Brasil afeta principalmente mulheres Pretas, Pardas e Indígenas, que têm menor probabilidade de receber cuidados de saúde adequados. Investigamos a associação entre raça e mortalidade por cancer de colo de útero e se essa associação é atenuada pelo recebimento do Programa Bolsa Família (PBF). Método: As mulheres da Coorte de 100 Milhões de Brasileiros foram vinculadas aos registros nacionais de mortalidade (2004–2015). A raça/cor autorreferida (mulheres Brancas/Pretas/Pardas/Amarelas/Indígenas) e a mortalidade por cancer de colo de útero (CID10C53) foram analisadas utilizando modelos de Poisson ajustados por idade, escolaridade, área de residência (rural/urbana) e ano de entrada na coorte. Avaliou-se a modificação de efeito pelo PBF (sim/não). Resultados: Foram analisadas 18.291.600 mulheres. As taxas de mortalidade por cancer de colo de útero foram maiores entre as mulheres Indígenas (Razão da taxa de mortalidade ajustada (RTMa) e Diferença da taxa de mortalidade ajustada (DTMa): 1.78, IC 95% 1.40–2.25 e 5.26, IC 95% 2.41–8.11, respectivamente), Amarelas (RTMa = 1.55, 1.16–2.06 e DTMa = 3.72, 0.74–6.70), Pardas (RTMa = 1.28, 1.22–1.34 e DTMa = 1.91, 1.56–2.25) e Pretas (RTMa = 1.20, 1.12–1.29 e DTMa = 1.37, 0.80–1.95) vs. mulheres Brancas. Entre as beneficiárias do PBF, as RTMa e DTMa foram, respectivamente, 1.12 (IC 95% 1.03–1.22) e 0.77 (IC 95% 0.19–1.35) para mulheres Pretas, 1.25 (1.19–1.32) e 1.61 (1.25–1.97) para Pardas, 1.74 (1.35–2.24) e 4.70 (1.94–7.47) para Indígenas, e 1.56 (1.12–2.18) e 3.57 (0.26–6.87) para Amarelas vs. mulheres Brancas; enquanto entre as não-beneficiárias do PBF, as RTMa e DTMa foram, respectivamente, 1.53 (IC 95% 1.31–1.78) e 4.05 (IC 95% 2.34–5.76) para mulheres Pretas, 1.36 (1.24–1.49) e 2.76 (1.94–3.59) para Pardas, 1.98 (0.94–4.16) e 7.48 (−3.77 to 18.73) para Indígenas, e 1.55 (0.89–2.68) e 4.21 (−2.27 to 10.68) para Amarelas vs. mulheres Brancas (p-valor interação = 0.017). Interpretação: Os diferenciais raciais na mortalidade por cancer de colo de útero foram reduzidos entre as beneficiárias do PBF e aumentados entre as não-beneficiárias do programa. Isso sugere que as desigualdades raciais na mortalidade por cancer de colo de útero podem ser mitigadas pelo PBF, através das transferências de renda e/ou das condicionalidades. Possivelmente, devido ao aumento da renda e do acesso das mulheres ao rastreamento do cancer de colo de útero e tratamento pré-cancerígeno, reduzindo a mortalidade. Financiamento: National Institute for Health and Care Research-NIHR.