Abstract / Summary
ResumoPor que o BMI (Body Mass Index) é um índice ineficiente para a Atenção Primária deSaúde?O BMI, proposto por Quetelet no século XIX, persiste como ferramenta epidemiológica eclínica, apesar de sua conhecida limitação: não distingue massa gorda de magra, ignora aheterogeneidade tecidual e trata o corpo como plano (cm²) quando ele é volume (cm³). Ascríticas ao método remontam ao próprio Quetelet, que já observara a variação da relaçãopeso–altura ao longo do desenvolvimento. Ancel Keys, ao batizar o índice como Body MassIndex (BMI), reconheceu suas limitações para avaliação individual, mas justificou suaescolha pela indisponibilidade tecnológica de métodos mais precisos em larga escala — amesma limitação que existia em 1832. Nick Trefethen propôs um refinamento matemáticocom expoente 2,5, que não resolve o problema da composição de corpos heterogêneos.Apresentamos o BMI-C (Body Morphometric Index – Corrected), um índice que incorporaa terceira dimensão do corpo. O BMI-C alcança correlação de 0,926 com a gordura dotronco mensurada por DEXA — valor que se aproxima do padrão ouro e tem capacidadepreditiva que o BMI não tem.A importância deste aperfeiçoamento ultrapassa a precisão estatística. A composiçãocorporal determina a disponibilidade de oxigênio e a reserva hídrica do organismo: otecido adiposo, ao causar constrição volumétrica paulatina dos pulmões, reduz acapacidade ventilatória e, ao substituir a musculatura, diminui a reserva hídrica. Essa duplarestrição — ventilatória e metabólica — impacta processos fundamentais como o ciclo deKrebs e a fosforilação oxidativa, que dependem de ambiente aquoso adequado para amanutenção do gradiente de prótons, a integridade mitocondrial e a eficiente produção deATP. A correção paulatina do BMI, ao refinar a estimativa da proporção entre massa magrae massa gorda, permite avaliar com maior acurácia a eficiência metabólica do organismo —dimensão que o BMI, por sua natureza bidimensional, é incapaz de capturar.